Investindo no IBOV através de mini-contratos futuros

Por que investir em índice de ações? De acordo com a teoria de mercados eficientes, não é possível obter-se consistentemente um retorno (ajustado pelo risco) acima do mercado, seja ele por meio de market timing ou seleção de ativos (stock picking). Existe uma grande controvérsia sobre este tema, pois caso isto fosse verdade uma boa parte da indústria financeira seria redundante e desnecessária.

Desde a década de 60, diversos pesquisadores investigaram a questão. Tomando como exemplo a indústria de fundos mútuos de ações nos EUA e Reino Unido, muitos estudos concluíram que a maioria dos fundos realmente não gera retornos estatisticamente superiores ao mercado.

No caso dos pequenos investidores, bombardeados diariamente por dicas de ações e sistemas e indicadores de análise técnica “infalíveis”, o problema é ainda maior. Um fato muito importante, normalmente ignorado, é o custo de transação.

Um exemplo é o estudo conduzido por Barber e Odean (2000), professores da Universidade da Califórnia, analisando o retorno de 66.465 contas de uma grande corretora de varejo dos EUA. Eles dividiram os investidores em 5 grupos, de acordo com o nível de movimentação financeira (turnover).

O gráfico abaixo mostra o que eles encontraram:

Investindo no IBOV através de mini-contratos futuros

Temos o retorno médio anual bruto (gross return) em branco, retorno médio anual líquido (net return) em preto, e o quanto cada grupo movimenta (turnover), para os cinco grupos, para o investidor médio, e para um fundo passivo de ações (iremos discutir o conceito a seguir).

Podemos ver claramente que o retorno bruto é semelhante para todos os grupos. Isto indica que ao negociar mais o investidor médio não aumenta sua performance bruta, de modo que ele está negociando com base em “ruídos” (a dica do momento ou o sistema “infalível”), ao invés de informação útil. Quando considerado o custo de transação, quanto mais negócios o investidor médio realiza (indo do grupo 1 ao 5), menor é seu retorno líquido, ou seja, maior é o dinheiro que acaba saindo da sua conta para a conta de sua corretora.

Deste modo, dada a dificuldade de se bater o mercado consistente-mente, muitos pequenos e grandes investidores preferem simplesmente como alternativa de baixo custo investir no mercado de ações como um todo de maneira passiva, isto é, seguindo um índice de ações.

Índices de ações são construídos com o objetivo de representar a performance do mercado como um todo (de um país, de grupos de países ou até mesmo de todo o mundo), de setores específicos da economia ou de empresas que possuam características comuns. Os índices mais utilizados e divulgados são os que representam os mercados de países, por exemplo: Dow Jones, S&P500 (EUA), FTSE (Inglaterra), Nikkei (Japão), Ibovespa (Brasil).

Os fundos que seguem índices de ações são chamados de fundos passivos (index trackers). Como a composição do fundo é conhecida e fixa na maior parte do tempo, o custo é baixo.

O fundo americano Vanguard 500, introduzido em 1976, segue o índice S&P500. Este fundo possui mais de US$ 100 bilhões em ativos administrado e tem um custo médio de apenas 0,18% ao ano para o investidor.

No Brasil, muitos destes fundos cobram taxas de administração elevada, de cerca de 2,5% ao ano. Este pequeno artigo mostra uma alternativa com o uso de mini-contratos futuros negociados na BM&F (Bolsa Mercantil e de Futuros).

O que são mini-contratos futuros de Ibovespa?

Um contrato futuro é um acordo entre duas partes para comprar e vender um certo ativo em um certo período no futuro por um certo preço. Um exemplo simplificado: um fazendeiro em Agosto/2006 possui café estocado e pode estar preocupado com uma possível queda do preço do café no mercado.

Desta maneira, ele vende contratos futuros de café na BM&F pelo preço de US$ 127,50 a saca com vencimento em 21/09/2006. No dia do vencimento o fazendeiro entrega o café recebendo o preço acordado anteriormente (US$ 127,50 a saca), mesmo que o preço tenha caído no mercado. Deste modo o fazendeiro que vendeu o café garantiu seu preço. A contraparte (que comprou os contratos futuros) irá ter feito um bom negócio se o preço do café subir no mercado até o vencimento.

Contratos futuros são padronizados e negociados em bolsa. Deste modo as partes não negociam diretamente.

No caso de contratos futuros do índice Ibovespa, o ativo não é físico, mas apenas financeiro (o valor do índice). No dia do vencimento do contrato, a BM&F calcula o preço de liquidação do contrato, baseado no preço médio do índice Ibovespa das últimas duas horas e meia de pregão. Os vencimentos são bimestrais. Cada ponto do índice vale R$ 1,00 e o lote mínimo de contratos que pode ser negociado contém 5 contratos.

Por exemplo, no dia 15/09/2006 um investidor compra 5 contratos futuros de Ibovespa a 36.460 pontos. Suponha que no vencimento em 18/10/2006 o preço de liquidação seja de 39.460 pontos. Este investidor ganhou (39.460-36.460) x R$ 1,00 x 5 contratos = R$ 15.000,00 no período menos os custos de corretagens.

Em geral a posição não é carregada até o vencimento, mas encerrada (zerada) antes com a operação contrária a operação inicial. Por exemplo, o investidor comprou os 5 contratos por 36.460 em 15/09/2006. Após uma semana, o contrato está sendo cotado a 37.460 pontos. O investidor pode simplesmente vender 5 contratos por 37.460, “zerando” sua posição inicial comprada e embolsando a diferença (37.460-36.460) x R$ 1,00 x 5 contratos = R$ 5.000,00.

Como pode-se ver, o contrato de Ibovespa futuro é bem caro para o pequeno investidor. Uma variação de 1000 pontos do índice em 5 contratos vale R$ 5.000,00. Desta maneira, a BM&F introduziu o mini-contrato futuro, onde 1 ponto do índice vale R$ 0,20 e o lote mínimo de negociação é de apenas 1 mini-contrato. Assim, no exemplo do parágrafo anterior, teríamos (37.460-36.460) x R$ 0,20 x 1 contrato = R$ 200,00 para uma oscilação de 1000 pontos.

Em muitos casos, o pequeno ou médio investidor/especulador vê o mini-contrato futuro como uma oportunidade para especular com alta alavancagem, isto é, apostar na direção do mercado e ganhar dinheiro com oscilações de curto prazo. Não é este o nosso propósito. Contratos futuros são uma alternativa extremamente barata e flexível também para o investidor de longo prazo, como iremos mostrar abaixo e nos próximos artigos.

Utilizando mini-contratos para criar seu próprio fundo Ibovespa

Suponha que um investidor deseje investir R$ 22.000,00 no índice Ibovespa. Estes recursos estão atualmente em um fundo DI ou em títulos do Tesouro Direto, que podem ser utilizados como margem junto a sua corretora. Vamos ignorar todos os custos de corretagem por enquanto.

No nosso exemplo, o Ibovespa está sendo cotado a 36.169 e o mini-contrato futuro está sendo cotado a 36.460 pontos no dia 15/09/2006. O cálculo do número de mini-contratos a ser comprado é bem simples:

Investindo no IBOV através de mini-contratos futuros

No nosso caso, teríamos:

Investindo no IBOV através de mini-contratos futuros

Ou seja, deveríamos comprar 3 mini-contratos.

Supondo que no dia 18/10/2006 o índice Ibovespa e o contrato futuro estejam em 39.460, teríamos um alta de:

Investindo no IBOV através de mini-contratos futuros

Desta maneira seria esperado que seus R$ 22.000,00 se tornassem R$ 22.000,00 x (1,091) = R$ 24.002,00 em 18/10/2006 em um fundo de ações passivo (menos a taxa de administração).

Qual terá sido o resultado da nossa posição?

Os R$ 22.000,00 renderam juros no período. Utilizando a taxa Selic de 14,25% como referência, 22 pregões até o vencimento em 18/10/2006 e considerando-se 252 pregões no ano, teríamos, R$ 22.000,00 x (1,1425)22/252 = R$ 22.257,35 em 18/10/2006. A posição em mini-contratos futuros rendeu (39.460-36.460) x 3 x R$ 0,20 = R$ 1.800,00. Portanto o valor final da nossa posição seria R$ 24.057,35, que foi um valor bem próximo ao desejado.

Na prática, cerca de 2 dias antes do vencimento (16/10/2006) deve-se vender os mini-contratos comprados anteriormente em 15/09/2006 e iniciar-se uma posição comprada para o próximo vencimento, o que é conhecido como “rolar a posição”. Esta nova posição deve ser calculada considerando-se o novo capital (por volta de R$ 24 mil).

É importante ressaltar que os juros ganhos no título público ou no fundo DI não é um “almoço grátis” para o investidor. É a compensação pelos juros embutidos no próprio contrato futuro (lembre-se que o Ibovespa estava em 36.169 e o mini-contrato futuro em 36.460).

Desta maneira, a única coisa que ocorreu foi que o investidor na prática “transformou” seu fundo de renda fixa para um fundo de ações Ibovespa passivo.

Temos a seguir um exemplo por um período mais longo.

Resultados no período 15/09/2005 – 15/09/2006

Este exemplo considera a execução da estratégia do exemplo anterior durante o período de 1 ano, entre 15/09/2005 a 15/09/2006, com um capital inicial de R$ 40.000,00. Os dados foram obtidos no site da BM&F.

Para o mini-índice, consideramos como preço de venda a cotação de fechamento menos 30 pontos e como preço de compra a cotação de fechamento mais 30 pontos, de modo que o efeito do spread (diferença entre ofertas de compra e venda) não seja desprezado.

A taxa Selic acumulada foi obtida no site do Banco Central. Consideramos a remuneração do capital a 90% desta taxa, pois uma parte do capital deve ficar líquida na corretora para os ajustes diários. A corretagem considerada foi de R$ 3,00 por contrato.

Em 15/09/2005 o índice Ibovespa estava sendo cotado a 29.366 pontos, enquanto que 1 ano depois, em 15/09/2006, este índice valia 36.169 pontos, uma valorização de 23,17%, que transformaria o capital de R$ 40.000,00 em R$ 49.267,86.

O valor final da nossa posição foi de R$ 49.625,15. Esta diferença positiva ocorreu principalmente porque arredondamos os 6,8 contratos em média de mini-índice para 7 contratos, portanto não é um mérito da estratégia.

Obtivemos desta maneira um retorno próximo ao índice Ibovespa apenas com ajustes bimestrais na posição de contratos futuros.

Notamos também que a alavancagem utilizada (apenas 7 mini-contratos para R$ 40.000,00) é bem menor do que a utilizada por especuladores.

Investindo no IBOV através de mini-contratos futuros

Observações e considerações finais

O mercado de ações pode ser arriscado no curto prazo. No Brasil entre 2000 e 2002 tivemos um grande mercado de baixa em que o índice Ibovespa despencou de 19.000 pontos para cerca de 8.400 pontos.

Desta maneira, o pequeno investidor deve considerar este fato ao construir sua carteira de investimentos, que deverá conter além de ações (ou índice de ações com mini-contratos), outras classes de ativos, como por exemplo: fundos de renda fixa, fundos cambiais, fundos imobiliários, etc. Os cálculo do número de mini-contratos futuros será feito apenas considerando-se a parte da carteira alocada para o mercado de ações.

O pequeno/médio investidor deve consultar sua corretora para questões operacionais, como margens, ajustes diários, etc.

O objetivo deste pequeno artigo é mostrar uma maneira simples de utilização de contratos futuros sem cálculos complexos, portanto evitou-se a introdução de conceitos mais teóricos ou matemáticos.

O índice Ibovespa inclui o reinvestimento de dividendos em seu cálculo, portanto com esta estratégia o retorno obtido será próximo ao retorno total do mercado (ganho de capital mais dividendos).

Existem alternativas eficientes para proteção em caso de queda, baseada em opções.

Neste caso o investidor abre mão de uma parte do movimento de alta para diminuir suas perdas no caso de um mercado em queda. Iremos explorar como construir estas defesas utilizando mini-contratos futuros no próximo artigo.

Bibliografia: Barber, B. e Odean, T. (2000) Trading is Hazardous to Your Wealth: The Common Stock Investment Performance of Individual Investors. Journal of Finance.

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